O mercado de crédito corporativo em São Paulo vive um momento de ajuste fino. Após dois anos de normalização pós-pandemia, bancos de médio porte e cooperativas de crédito revisaram, entre março e maio de 2026, os parâmetros de concessão para empresas com faturamento anual entre R$ 50 milhões e R$ 500 milhões. A mudança não é uniforme: setores que demonstram geração consistente de caixa operacional recebem condições mais favoráveis, enquanto segmentos com margens comprimidas enfrentam exigências adicionais de garantias.
Segundo dados compilados pela Federação das Associações de Bancos do Estado de São Paulo, o volume de operações de capital de giro cresceu 4,2% no acumulado de janeiro a maio, mas a composição desse crescimento revela uma rotação setorial relevante. Indústria de transformação, logística e distribuição de alimentos concentraram 58% das novas linhas aprovadas. Já construção civil e varejo de moda registraram queda de 11% e 8%, respectivamente, na quantidade de contratos fechados no mesmo período.
Spreads e o custo do dinheiro
Para empresas com rating interno entre BBB e A, os spreads médios sobre a taxa Selic subiram entre 15 e 35 pontos-base em relação ao trimestre anterior. Esse movimento reflete tanto a cautela das instituições quanto a competição por bons pagadores. Gestores financeiros ouvidos pelo Vector Brasil relatam que negociações que antes levavam duas semanas agora se estendem por um mês, com comitês de crédito solicitando demonstrações trimestrais atualizadas e projeções de fluxo de caixa para os próximos 18 meses.
A rotação não é uma restrição generalizada de crédito. É uma seleção mais rigorosa de risco, com preferência clara por setores que conseguem demonstrar resiliência de margem.
Empresas localizadas no interior paulista — especialmente em Campinas, Ribeirão Preto e Sorocaba — relatam acesso relativamente melhor a linhas de investimento vinculadas a modernização de plantas industriais. Programas de incentivo estadual e a presença de agências regionais de bancos públicos contribuem para esse ambiente diferenciado em relação à capital.
Capital de giro e o ciclo operacional
O capital de giro permanece como a principal demanda das empresas de médio porte. Com prazos médios de pagamento a fornecedores estáveis em 45 a 60 dias e recebíveis variando entre 30 e 90 dias conforme o setor, a necessidade de financiamento do ciclo operacional é estrutural. O que mudou é o custo: taxas efetivas que orbitavam 14% ao ano no início de 2025 agora se aproximam de 16,5% para operações sem garantias reais adicionais.
Distribuidoras de insumos agrícolas e empresas de embalagem para alimentos são exemplos de segmentos que mantêm boa performance na obtenção de crédito. Ambos se beneficiam de contratos de longo prazo com clientes de porte e de indicadores de inadimplência abaixo da média do portfólio bancário regional.
Implicações para o segundo semestre
Analistas consultados projetam manutenção dessa tendência seletiva ao longo do segundo semestre. A decisão do Copom em manter a Selic em patamar elevado reforça a postura conservadora das instituições. Para gestores, a recomendação prática é antecipar necessidades de financiamento, diversificar fontes — incluindo fundos de investimento em direitos creditórios e securitizadoras — e manter indicadores financeiros atualizados para agilizar processos de aprovação.
O Vector Brasil continuará monitorando dados mensais de crédito divulgados pelo Banco Central e por associações setoriais. Atualizações serão publicadas conforme novas estatísticas forem disponibilizadas.