O complexo exportador de grãos brasileiro entra no segundo semestre de 2026 com sinais claros de rotação no mix de produtos embarcados. Dados preliminares dos portos de Paranaguá, Santos e Rio Grande indicam que, embora a soja continue dominando o volume total — com mais de 60% das exportações agrícolas —, milho e farelo de soja avançam em participação relativa e em valor agregado dos contratos comerciais.
Entre janeiro e maio, o Brasil exportou 52,3 milhões de toneladas de soja em grão, volume estável em relação ao mesmo período de 2025. O milho, por outro lado, saltou de 8,1 para 11,4 milhões de toneladas, impulsionado pela safra recorde do Centro-Oeste e pela demanda aquecida da China e de países do Oriente Médio. O farelo de soja, com 9,7 milhões de toneladas embarcadas, consolidou posição como produto estratégico para tradings que buscam diversificar receita além do grão.
Logística portuária e gargalos
A logística permanece como variável crítica. O Porto de Santos opera próximo à capacidade máxima em granéis sólidos durante os picos de embarque, entre março e julho. Operadores logísticos relatam filas de espera de até cinco dias para atracação de navios graneleiros, cenário que pressiona custos de armazenagem e penalidades contratuais por atraso na entrega.
O gargalo não é apenas portuário. É sistêmico — envolve ferrovias, armazéns no interior e coordenação entre produtores, tradings e exportadores.
No Paraná, o corredor de exportação via Paranaguá se beneficia da Ferrovia Norte-Sul e de investimentos recentes em silos de armazenagem na região de Londrina e Maringá. A capacidade de escoamento melhorou, mas ainda depende de condições climáticas e da manutenção de vias durante o período de chuvas no Sul.
Preços e contratos futuros
Os preços internacionais da soja operam em patamar de US$ 420 a US$ 445 por tonelada (FOB), com volatilidade atrelada às negociações comerciais entre Brasil e importadores asiáticos. O milho, cotado entre US$ 195 e US$ 210, atrai produtores do Mato Grosso e Goiás que buscam alternativas de comercialização quando a soja oferece margens mais estreitas.
Contratos futuros firmados em Chicago e convertidos para real mostram prêmio de exportação brasileiro em elevação para o milho, sinal de que o mercado antecipa forte demanda externa. Tradings como Amaggi, Cargill e Bunge intensificaram contratações de longo prazo com produtores, oferecendo travas de preço e financiamento de insumos como contrapartida.
Sustentabilidade e rastreabilidade
Outro vetor de mudança é a exigência de rastreabilidade e certificação ambiental por compradores europeus e norte-americanos. Exportadores que comprovam origem sustentável e ausência de desmatamento acessam prêmios de 3% a 7% sobre o preço base. Produtores do Mato Grosso do Sul e do Pará que aderiram a protocolos de monitoramento via satélite reportam facilitação em negociações com mercados exigentes.
Perspectivas para o segundo semestre
Para o segundo semestre, analistas projetam manutenção do volume total de exportações agrícolas, com crescimento proporcional do milho e do farelo. A safra de inverno no Sul e a segunda safra de milho no Centro-Oeste serão determinantes para confirmar ou revisar essas projeções. O Vector Brasil acompanhará os dados mensais da SECEX e os relatórios de embarque dos principais portos.